Outras Literaturas




Elaborei o prefácio do livro mais recente de Carvalho Junior: No alto da ladeira de pedra. Uma obra que vale a leitura. Abaixo, transcrevo o texto. 


Infâncias e ausências rasgando o impossível

vida e morte, fábulas obsoletas.
Carvalho Junior

Quando comecei a ler No alto da ladeira de pedra, sob a tarefa de lhe dedicar alguma escrita, o único empecilho foi conseguir me desgarrar do volume para a confecção de alguns pensamentos. Não é de hoje que acompanho os escritos do poeta Carvalho Junior. Conheço e aprecio seu livro anterior, Dança dos Dísticos, e volta e meia trocamos pelo facebook.
Este novo compêndio me faz pensar sobre a renovação de um poeta. Em literatura, a cada livro entra em jogo a diferença do olhar sobre a experiência colhida e a matéria narrada. Suicídio, que abre o feixe de poemas, justifica minha ponderação, porque choca, impacta, embeleza, de um modo diferente de sua produção anterior – e tudo numa tacada só, como se não houvesse tempo para outro fôlego:
matei-me com a corda que não pulei na infância.

O tempo, aliás, assim como outros temas que interrogam a humanidade, por sua banalidade e seu assombro, é tópico para as notas líricas que se abrem a cada verso. O tempo, o amor e suas definições cruas, a sexualidade como domadora de vazios, e o próprio vazio aplacado pelo exercício da poética e do silêncio, percorrem as páginas e as pedras.
Estamos diante de um livro que mostra, ainda, um poeta atento às vicissitudes do país onde vive e, principalmente, se quisermos pensar na importância do local, do bairro onde cresceu, da rua onde mora. Tal traço fica notório quando, através do texto, ficamos diante do rio Itapecuru, da rua Teixeira Mendes e de todo o Maranhão mapeado pelas tintas do autor; são os reclames numa urbes que oprime e se perde entre o caos, contra a negligência de quem deveria cuidá-la e contra a privatização cultural e o abandono (Raios X, Sobrevivência).
Mas, acima de tudo, este é um livro sobre faltas – “para rasgar nas unhas do arame os calos de sangue dos pés dos meus fantasmas.”. E é por meio da infância que estas ausências se revelam. São muitos os poemas que recortam o tema – a exemplo de Paredes da infância, Sobre o meio-fio não em tom de queixume, mas suturando com beleza um pouco de “todos os meus medos de menino”, concentrando, para mim, os pontos mais belos do volume. É pela infância que a lira se rasga em carne que habita e existe feito lacuna algum tipo de utopia humana que talvez almeje, muito sem o saber, retornar à pureza da meninice, que ainda repousa no colo do poeta e nos mostra que do alto da ladeira de pedra os espaços são os das possibilidades, e os encontros, mágicos, como este com uma Cigana:
apressa o passo, cigana.
urgente preciso

um cigarro de Macondo

para pôr fim a esta
minha solidão
de quase trinta anos.



Clarissa Macedo. 


Página do autor: https://www.facebook.com/professorcarvalhojunior

Link para aquisição do livro: http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=285





A veste do girassol rompido: uma poesia que vivencia pássaros

Os girassóis da manhã seguinte /
surgiram calmos, /
[...]
Abriram as gavetas do dia
como se fossem suas pétalas
Markus Vinícius

Dizem que um amigo é um fio que nos conduz mansamente por entre longos labirintos[1]. Comigo e Markus é assim. Ao nos conhecermos, de um modo inusitadíssimo, nos soubemos amigos, porque amigos se reconhecem, já dizia Vinícius, como um leitor inventivo sabe reconhecer um poema. Entretanto, não é só de amizade que se constrói este texto que abrirá caminhos; é de vislumbre e satisfação, porque é isso que me ofertam Os girassóis da manhã seguinte e o canto do pássaro livre, de Markus Vinícius Borges dos Santos.
Manoel de Barros, em “Sol s. m.”, nos prepara: “Quem tira a roupa da manhã e acende o mar / Quem assanha as formigas e os touros / Diz-se que: / se a mulher espiar o seu corpo num ribeiro florescido de sol, sazona / Estar sol: o que a invenção de um verso contém”. Estar sol é no que consiste (também) a aventura luminosa do verso. E a luminosidade de que fala o Sol manoelino, compõe este apanhado de poemas; junto a ela, uma multidão de pássaros que salmodiam mantras, reviram espelhos e filosofias, solfejando hinos que cantam a própria condição de ser poeta: “O canto do pássaro livre surge / no rebento das flores abertas, / exalante germinação dos ventos / saudando a chegada do poeta. // Todo pássaro quer seu canto / livre das fórmulas do sol”.
Mas nem só de luz se nutre uma lírica. Por isso, as sombras também habitam, camufladas, os textos em pauta, ora em forma de contraponto, ora em moldes de ironia, meditação e apontamentos sobre o cotidiano: “na arquibancada da vida / ou no centro de todo palco / ou se dança boba como uma bailarina / ou se vinga sério como um palhaço.”.
De tom leve e psicanalítico (não apenas pelas referências à psicanálise pós-freudiana), os textos deste livro abordam temáticas como a infância, o tempo e a obviedade da vida diante da dor, travestidas pelo sol como sagração e metáfora da existência: tônicas transfiguradas em lirismo; de um que brota dos pulsos cortados do escritor – porque escrever é um eterno cortar(se) e remendar(se) de pulsos –, pulsos que, neste caso, não fazem manar sangue, mas um plasma cor de alvorada.
Amor e morte, temas literários por excelência, também não deixam de percorrer o canto do pássaro livre, aparecendo em poemas como “O cavaleiro”: “no Tarô de seus olhos magros / a morte é apenas uma carta / sempre fora do baralho.”.
Figurações míticas e a presença de elementos da tradição grega, ressignificados no tempo do autor, porque Markus formata uma textualidade de seu tempo, formam arranjos que nos remetem a imagéticas imaginativas, a sertões rarefeitos, a manhãs que nos revigoram para nos instigar. Sobre ser uma poesia de seu tempo, há nesta leva reflexões sem um teor militante acerca de questões políticas – como em “Homem Bomba”: “Duas torres gêmeas demolidas / ( o sangue e a saliva ) / e Hiroshima e Nagasaki / ainda negociando a paz / de seus entulhos” –, culturais – “e o ato crítico de / destruir o crucifixo / das miragens...” – e sociais. Não gosto de pensar (mesmo porque não é) este livro de Markus com a roupagem redutora de um conceito mal formulado sobre o social. Livre da redoma de uma escrita “sociorrealista”, uma das vantagens que a contemporaneidade trouxe, o que percebo nos poemas é uma preocupação com o entorno, com as desventuras que uma cultura de exploração ocasiona a quem nela vive e com os emblemas mal colhidos no trato com o outro: “esgrimo o sol / na fome quente / dos canaviais... // [...] sou essa lâmina / que atravessa a carne / crua dos vendavais.”. Talvez isso se deva ao ofício da psiquiatria, aliado ao imaginário de um poeta de sensibilidades. 
Tudo isso oscilando entre limites: o do bem e o do mal, o do palpável e o do ficcional, o da vida e o da morte.
*
Em diálogo com a tradição, que se confunde com vertentes do moderno e do contemporâneo[2], o fato é que neste feixe de textos ondula coisa nova, paradoxalmente, incorrendo no rememoramento de algo; um algo que nos cintila o espírito. Alguns escritores aparecem aqui e ali neste compêndio de Girassóis; Drummond, Kafka e Manoel de Barros, este principalmente, são exemplos neste contexto. Mas, é importante frisar, não aparecem para determinar uma filiação tardia ou uma imitação pouco criativa: são vozes que apenas sopram, sem carregar a gênese dos poemas, cujas sílabas falam por si mesmas. Ainda neste universo, o cunho biográfico, sem teorizarmos aqui sobre a forma de presença do autor no texto, aparece entrecortado, sinuoso, diaspórico: “Essa minha biografia só abre aspas para o silêncio.”; “Nada além de mim / posterga esse outro / que me dissolve.”. 
Um ponto que também embeleza a obra referida diz respeito aos desenhos que estão entre alguns textos e que foram elaborados pelo próprio poeta; são linhas poéticas em forma de traços – alegoria e metatexto “fantocheando a mímica do sol”.
Em síntese (para que o leitor percorra o que de fato importa), o girassol que se rompe nessas páginas feitas de auroras, nessas revoadas de pássaros de variadas asas, que correm num espaço bem demarcado (o interior da Bahia), mas também universal e simbólico, por isso mesmo tão real, configura uma cartografia em delírio, feita de trópicos solares, batizada das vestes do infinito e de uma retórica toda especial: a retórica de uma íntima (e intacta) natureza.

Clarissa Macedo




[1] Labirinto: “É dessa mania / de dar coisas aos nomes / que vem essa outra / de dar nomes às coisas. // Assim, no meio do que nomeio / revelo no que velo / o novelo do que não vejo. // Como Teseu / me conduzo por um fio.” Markus Vinícius.
[2] Há momentos em que a forma dos textos flerta com o concretismo: “O homempalavraestátuapoema, / de Itabira, recompõe, no vandalismo / das tintas, a grafitagem do verbo / )a anarquia de sua solidão mineira...”. 

Página do autor:  https://www.facebook.com/markusvinicius.borges

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