domingo, 3 de dezembro de 2017

Poemas de Clarissa Macedo nos Diários Incendiários

Altar
Migra a coisa escondida
sem hora, sem dia.
O tempo repousa fundo
e corre pelas sombras e pelos vales.
Será que volta? Será que vem
levar da vida
as horas de trabalho,
as rezas não ouvidas,
os olhos demonizados
num lugar que não acalma,
nem guia
mas bate e apavora?
Será que é pra lá
que vão?
Não olham o céu ou o dicionário
Mas, ah, a novela
– esse livro didático, esse mantra,
essa bíblia que enlouquece.
Deus proteja a família:
os filhos adoecidos,
a mulher lavando pratos,
o homem na rua babando por criancinhas
– o museu fechado.
O mundo e sua indústria da carochinha,
é dele o dinheiro sagrado.
***

Woman sapiens
Ao lado do formicida das horas
me preparo para decapitar a memória,
esse exército adversário,
as aulas de etiqueta que não tive.
Preparar o frango é um raso do cotidiano,
quando o outro parece uma agulha nos olhos.
No princípio, o fim não sabia
que chegaria na longa fila dos anos e do sus.
No instante em que aportei
minha ilha não me disse
que a vida escreve os nomes da eternidade.
O neolítico é um planeta onde as dunas viram sangue,
e os corpos
passagens do agreste.
Neste espanto do mito
sonho um teste de virgindade da beleza na boca dos homens
e cumpro o destino absurdo do mundo.
***

electron global ltda.
a mídia é uma era
e em poucos minutos
estaremos mais surdos,
mais cegos das luzes
das telas e flashs
com moças de biquíni
a promessa do melhor sexo
da juventude eterna
o melhor ângulo
a melhor mentira da miséria
contada aos turistas
e em poucas horas
seremos mais mudos
congeladas/os pra sempre
no sonho do grande remédio
que salvará os tempos
que enganará a morte
tudo isto por apenas:
R$ milhões de vidas,90!
ou em todas as prestações
do seu cartão de crédito –
débito que nunca paga
o delírio de ser consumo
de não ser você
ah…
se pudesse compraria o mundo
e faria uma grande selfie sideral
do que sobrou daquilo
do que um dia conhecemos
por terra, um éden machucado
ferido de grifes e passarelas
do que ninguém comeu, bebeu,
viajou, teve, fudeu, gozou, amou,
sentiu, viveu, morreu
do que ninguém é (mas quer)
e que nunca será
***

Matemática de jornal
Uma menina morreu.
Não, duas meninas morreram
(e este acréscimo é só um número na página)
Duas meninas mortas aos oito anos de idade
Vidas no meio do mundo morreram
     sob os lençóis alvos de homens de quarenta
compradas de famílias famintas
em que houve, um dia, um futuro
Duas meninas mortas:
Cinquenta meninas de oito anos casaram com monstros de setenta e mãos e olhos
Trinta meninas extintas nas núpcias. Vinte meninas vivem mortas, desabrochadas à força, machucadas à morte
E tudo o que se faz é aguardar os números da próxima hora.

Clarissa Macedo
é doutoranda em Literatura e Cultura, escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e fora do país, integrando diversas coletâneas, revistas, blogues e sites. Publicou O trem vermelho que partiu das cinzas e Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014, em segunda edição pela Penalux, 2017). Seu trabalho está traduzido para o espanhol (En la pata del caballo hay siete abismos – tradução de Verónica Aranda, Editorial Polibea, Madrid) e em processo de tradução para o inglês. Prepara quatro novos livros. Contato: clarissamonforte@gmail.com e http://www.clarissamacedo.com.br/

https://diariosincendiarios.wordpress.com/2017/11/15/poemas-de-clarissa-macedo/

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