domingo, 3 de dezembro de 2017

"Altar" e "Woman sapiens" de Clarissa Macedo em A voz pública da poesia



Woman sapiens


Ao lado do formicida das horas
me preparo para decapitar a memória,
esse exército adversário,
as aulas de etiqueta que não tive.

Preparar o frango é um raso do cotidiano,
quando o outro parece uma agulha nos olhos.

No princípio, o fim não sabia
que chegaria na longa fila dos anos e do sus.

No instante em que aportei
minha ilha não me disse
que a vida escreve os nomes da eternidade.

O neolítico é um planeta onde as dunas viram sangue,
e os corpos
    passagens do agreste.

Neste espanto do mito
sonho um teste de virgindade da beleza na boca dos homens
e cumpro o destino absurdo do mundo. 

http://avozpublicadapoesia.blogspot.com.br/2017/11/woman-sapiens.html

Altar


Migra a coisa escondida
sem hora, sem dia.
O tempo repousa fundo
e corre pelas sombras e pelos vales.
Será que volta? Será que vem
levar da vida
as horas de trabalho,
as rezas não ouvidas,
os olhos demonizados
num lugar que não acalma,
nem guia
mas bate e apavora?
Será que é pra lá 
que vão?

Não olham o céu ou o dicionário
Mas, ah, a novela
- esse livro didático, esse mantra,
essa bíblia que enlouquece.

Deus proteja a família:
os filhos adoecidos,
a mulher lavando pratos,
o homem na rua babando por criancinhas
– o museu fechado.

O mundo e sua indústria da carochinha,
é dele o dinheiro sagrado. 

http://avozpublicadapoesia.blogspot.com.br/2017/11/altar.html

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