quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013





Memória


Matava-me. Matava-me aquela vontade de ver o que ainda não podia. Retrucava, de mansinho: – Deixa, por favor! E depois de tanta insistência, ela permitiu que eu parasse em frente à TV antiga e lá ficasse. – Mas só se eu também assistir, sentenciou – com aquele tom de ameaça que a infância fareja de longe. Concordei, encurralada que estava. A película era inspirada n’O homem nu, do Fernando Sabino. – Impróprio, ela dizia.
Passado o primeiro momento, meio vexatório para nós duas, assistimos ao filme inteiro. Sorríamos.

*

Mal imaginava que aquele momento ficaria cravado em minhas lembranças. Naquela madrugada, vivi o acontecimento mais genuíno de toda a nossa história: ela, uma velhinha, eu, uma pequena, que já começava a descobrir a vida, esquecemos todas as mágoas. E, numa cumplicidade embaraçosa, soube o que era ter à mãe da minha mãe por perto.
Ela, cheia de direções no azul dos olhos, nunca mais ficou ao meu lado.


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