domingo, 3 de dezembro de 2017

Da subjetividade à resistência: a escrita de textos que nos tocam


O dito contemporâneo lida com um factual multipolarizado – tanto pela fratura política que atravessa, passando pelas ainda incertas discussões sobre uma pós-humanidade, até chegar aos conflitos de identidade ligados ao gênero, ao território, à etnia, à cultura e à condição socioeconômica. Tudo isto configura uma literatura cada vez mais resistente ao que está posto como verdade inviolável e preestabelecida. Nesse sentido, a proposta desta oficina passeia por textos literários que discutem e conformam um campo de resistência, seja para o feminino, seja para a/o negra/o ou o latino-americano, sem perder de vista o caráter estético inerente a qualquer peça de arte. Assim, iremos refletir, papear e escrever a partir da resistência, compondo nós mesmas/os outras maneiras de se narrar e poetizar por meio das questões que nos tocam.

Poemas de Clarissa Macedo nos Diários Incendiários

Altar
Migra a coisa escondida
sem hora, sem dia.
O tempo repousa fundo
e corre pelas sombras e pelos vales.
Será que volta? Será que vem
levar da vida
as horas de trabalho,
as rezas não ouvidas,
os olhos demonizados
num lugar que não acalma,
nem guia
mas bate e apavora?
Será que é pra lá
que vão?
Não olham o céu ou o dicionário
Mas, ah, a novela
– esse livro didático, esse mantra,
essa bíblia que enlouquece.
Deus proteja a família:
os filhos adoecidos,
a mulher lavando pratos,
o homem na rua babando por criancinhas
– o museu fechado.
O mundo e sua indústria da carochinha,
é dele o dinheiro sagrado.
***

Woman sapiens
Ao lado do formicida das horas
me preparo para decapitar a memória,
esse exército adversário,
as aulas de etiqueta que não tive.
Preparar o frango é um raso do cotidiano,
quando o outro parece uma agulha nos olhos.
No princípio, o fim não sabia
que chegaria na longa fila dos anos e do sus.
No instante em que aportei
minha ilha não me disse
que a vida escreve os nomes da eternidade.
O neolítico é um planeta onde as dunas viram sangue,
e os corpos
passagens do agreste.
Neste espanto do mito
sonho um teste de virgindade da beleza na boca dos homens
e cumpro o destino absurdo do mundo.
***

electron global ltda.
a mídia é uma era
e em poucos minutos
estaremos mais surdos,
mais cegos das luzes
das telas e flashs
com moças de biquíni
a promessa do melhor sexo
da juventude eterna
o melhor ângulo
a melhor mentira da miséria
contada aos turistas
e em poucas horas
seremos mais mudos
congeladas/os pra sempre
no sonho do grande remédio
que salvará os tempos
que enganará a morte
tudo isto por apenas:
R$ milhões de vidas,90!
ou em todas as prestações
do seu cartão de crédito –
débito que nunca paga
o delírio de ser consumo
de não ser você
ah…
se pudesse compraria o mundo
e faria uma grande selfie sideral
do que sobrou daquilo
do que um dia conhecemos
por terra, um éden machucado
ferido de grifes e passarelas
do que ninguém comeu, bebeu,
viajou, teve, fudeu, gozou, amou,
sentiu, viveu, morreu
do que ninguém é (mas quer)
e que nunca será
***

Matemática de jornal
Uma menina morreu.
Não, duas meninas morreram
(e este acréscimo é só um número na página)
Duas meninas mortas aos oito anos de idade
Vidas no meio do mundo morreram
     sob os lençóis alvos de homens de quarenta
compradas de famílias famintas
em que houve, um dia, um futuro
Duas meninas mortas:
Cinquenta meninas de oito anos casaram com monstros de setenta e mãos e olhos
Trinta meninas extintas nas núpcias. Vinte meninas vivem mortas, desabrochadas à força, machucadas à morte
E tudo o que se faz é aguardar os números da próxima hora.

Clarissa Macedo
é doutoranda em Literatura e Cultura, escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e fora do país, integrando diversas coletâneas, revistas, blogues e sites. Publicou O trem vermelho que partiu das cinzas e Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014, em segunda edição pela Penalux, 2017). Seu trabalho está traduzido para o espanhol (En la pata del caballo hay siete abismos – tradução de Verónica Aranda, Editorial Polibea, Madrid) e em processo de tradução para o inglês. Prepara quatro novos livros. Contato: clarissamonforte@gmail.com e http://www.clarissamacedo.com.br/

https://diariosincendiarios.wordpress.com/2017/11/15/poemas-de-clarissa-macedo/

"Altar" e "Woman sapiens" de Clarissa Macedo em A voz pública da poesia



Woman sapiens


Ao lado do formicida das horas
me preparo para decapitar a memória,
esse exército adversário,
as aulas de etiqueta que não tive.

Preparar o frango é um raso do cotidiano,
quando o outro parece uma agulha nos olhos.

No princípio, o fim não sabia
que chegaria na longa fila dos anos e do sus.

No instante em que aportei
minha ilha não me disse
que a vida escreve os nomes da eternidade.

O neolítico é um planeta onde as dunas viram sangue,
e os corpos
    passagens do agreste.

Neste espanto do mito
sonho um teste de virgindade da beleza na boca dos homens
e cumpro o destino absurdo do mundo. 

http://avozpublicadapoesia.blogspot.com.br/2017/11/woman-sapiens.html

Altar


Migra a coisa escondida
sem hora, sem dia.
O tempo repousa fundo
e corre pelas sombras e pelos vales.
Será que volta? Será que vem
levar da vida
as horas de trabalho,
as rezas não ouvidas,
os olhos demonizados
num lugar que não acalma,
nem guia
mas bate e apavora?
Será que é pra lá 
que vão?

Não olham o céu ou o dicionário
Mas, ah, a novela
- esse livro didático, esse mantra,
essa bíblia que enlouquece.

Deus proteja a família:
os filhos adoecidos,
a mulher lavando pratos,
o homem na rua babando por criancinhas
– o museu fechado.

O mundo e sua indústria da carochinha,
é dele o dinheiro sagrado. 

http://avozpublicadapoesia.blogspot.com.br/2017/11/altar.html

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Poemas no projeto Fotos e Grafias























domingo, 22 de outubro de 2017

Participação no Sarau do Boi Encantado


Fui uma das convidadas do Sarau do Boi Encantado, em Alagoinhas. Desde o cenário (o antigo matadouro ocupado por artistas da cidade), passando pelo carinho do organizador, o poeta João Lopes Filho, até chegar à receptividade do público, ter participado foi uma experiência para ser guardada no lugar mais bonito da memória. Fiquei cheia de alegria. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Poesia

Descendência


Sou filha de uma índia desconhecida
que me pariu numa pedra
na beira da estrada

não uma chocadeira, mas uma árvore
que põe frutos todos os dias

talvez por isso eu seja tão forte
talvez por isso eu ande em nuvens de pés descalços
e seja tão só

A estrada onde nasci conserva um vigor ainda
e eu a visito todos os anos no dia de finados

minha estrada é a esquina onde segui
e lá estão apregoados meus véus e meus desejos

minha índia, mãe de toda uma lírica,
eu nasci porque não havia opção.



quarta-feira, 5 de abril de 2017

Participação de Clarissa Macedo no 18º Chá de Conversa e Som


O Coletivo Chá promove no próximo dia 6 de abril, a partir das 19h30, em Feira de Santana, mais uma edição do Chá de Conversa e Som. A 18ª etapa do projeto será realizada, mais uma vez, no Malungo Centro de Capoeira Angola.

Nesta oportunidade, o tema em destaque é “Mulher (es) e sociedade: um dedo de prosa”, quando teremos uma roda de conversa sobre empoderamento feminino. As convidadas são a advogada e poeta Fabiana Machado e a enfermeira e professora universitária Ellen Oliveira. 

Neste Chá teremos vamos dar espaço para a poesia e contaremos com a participação especial da premiada poeta Clarissa Macedo, um dos nomes mais relevantes nomes do universo literário nos tempos atuais. 

O Chá

O Chá de Conversa e Som é um evento da sociedade civil, de acesso gratuito e classificação livre e fundamenta-se em encontros temáticos para “bate-papos” que girem em torno da cultura feirense, territorial e estadual.

A proposta, idealizada em 2012 pelo artista plástico e percussionista Gabriel Ferreira, foi produzida em variados espaços da Feira de Santana como o Centro de Cultura Amélio Amorim, Cidade da Cultura e Museu de Arte Contemporânea (Mac).

A atividade é organizada pelo Coletivo Chá, composto por Gabriel Ferreira, Bel Pires (Grupo de Pesquisa Populações Negras/Uneb e Malungo) e pelo radiojornalista e ativista cultural Elsimar Pondé.

SERVIÇO

O que: Chá de Conversa e Som - 18ª edição
Quando: Quinta-feira, 6 de abril de 2017, às 19h30
Onde: Malungo Casa de Cultura – Rua Barra dos Bandeirantes, nº 854 – Cidade Nova. Seguindo pela Avenida Fraga Maia, no sentido Conjunto João Paulo, entra na primeira à direita, lateral do supermercado Armazém.
Realização: Coletivo Chá
Entrada, chá e torrada: Gratuitos


Texto divulgação por Elsimar Pondé

Copyright © 2014 Clarissa Macedo